Sexta-feira, 23 de Maio de 2008

Insônia, Café, Cigarros...

Ela sai por aí. E sempre há gente interessante por aí. Acena com a cabeça, um jogar de cabelos sutil, bem sutil, pra não parecer que está é jogando charme. E a pessoa interessante sorri pra ela, imediatamente, porque sabe que é charme. Ela baixa os olhos, finge que não, conta até trinta e olha de novo pra ele. Só até trinta, é o tanto que ela consegue dissimular o interesse. Não é de fazer charminho, só alguns. Às vezes, não se expressa direito, mas em outras, quando língua volta a coçar e ela decide que já é hora de brincar novamente, ah, nessas horas até agradece por ser tímida. Porque na verdade, é aquela lacuna que ele sabe que existe entre uma frase e outra, um sorriso no lugar de uma resposta, são aquelas olheiras denunciando que eles sofrem do mesmo mal, aliás, dos mesmos males, que o faz achar que vale a pena esticar uma conversa, terão tempo pra se descobrirem. E ela pensa: bem, ele ouve os discípulos do Sabbath, tá que não tem nada a ver com o meu gosto musical, mas afinal, nunca tem. E tudo bem que é quase um reacionário, lê Schopenhauer e acha que diversão é coisa de babaca. Não importa.
Ela se diverte com ele e ele procura nela algum sinal de aceitação. Ela também estava a procura disso quando saiu por aí. E decidem ver onde tudo isso vai acabar. Mais por enquanto é só o começo da brincadeira e muita coisa de interessante há de acontecer, eles sabem...

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Os dois lados da mesma moeda

Coroa


Sabe, eu penso em você todos os dias. Desde aquele último amanhecer que vimos juntos anunciar a nossa separação tomei por mania, pelas manhãs, fumar debruçada a janela só para que as lembranças não se percam nos outros vícios do cotidiano.
Não, não é saudade. Saudade é resultado (do) final. E a esperança (ainda) não morreu.
Os dias começam assim, para que quando cheguem ao fim ainda haja fôlego de se ter querer por essa paixão exigente de compromissos e desapegos. E porque assim, fumando debruçada a janela, mantenho sensação de que nem só de lembranças e esperança (aquela que ainda não é saudade) a vida segue. Segue de fome, alimentada pelos pequenos gestos, pelas grandes vitórias, nos rituais de consagração, (ah, fizemos tantas promessas – invisíveis fios sem amarras? - para um futuro mais-que-perfeito, enquanto no presente, este imperativo(!), o que perdura na minha boca é o gosto do teu corpo com certo amargo de noites passadas em claro, tantos desejos de um ontem que persiste ser hábito nas dobras das minhas lembranças...), nos votos secretos feitos a divindade do acaso, na fé depositada nas preces cinzeladas por todo corpo, tudo isso e algo mais se faz alegria nos que se separam por cidades e estações.
É por causa do apreço que tenho pelas lembranças de ti que te deixo ser eterno e te deixo para a posterioridade mesmo sabendo que um dia rasgará tudo que é meu. Mais o despertar há de assaltar-me, a poesia hei de renunciar, a janela fechar, a vida continuar e de novo ter as portas abertas para se ganhar o mundo, pô!
Isto é, até a próxima manhã (por enquanto)...
(img retirada da web)
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Cara

Sabe, eu penso em você todos os dias. Desde aquele último amanhecer que vimos juntos celebrar a nossa paixão tomei por mania, pelas manhãs, fumar debruçada a janela só para que as lembranças não me deixem ser tragada pela sofreguidão do cotidiano.
É, é saudade. Saudade alicerçada na esperança de ter você novamente a três ou quatro passos de distância, de ver no teu olho o pedido de um beijo, minha alma estendida sobre teus lábios, meridianos atravessando meus abismos e silêncios, entre meus seios tua respiração, tuas mãos cravadas nos meus meios, teus pêlos sobre minha pele, meus pés percorrendo tuas pernas,
o deslizar de tua púbis no salivar do meu corpo. E é desta maneira, fumando debruçada a janela, que mantenho sensação de que nem só de lembranças a vida segue.
Porque é assim que os dias começam para que quando cheguem ao fim, a possibilidade ínfima de que a vida pode ser vivida (novamente) em um só dia seja renovada no querer dessa paixão exigente de compromissos e despudores. Segue pelo milagre da espera (ah, fizemos tantos pactos pra um futuro indicativo de gestos grandiosos, de vitórias miúdas, de rituais para trapacear o destino. Enquanto no presente, este imperativo(...), o que perdura na minha boca é o gosto do teu corpo adocicando as noites passadas em claro. Tanto desejo em um ontem que se trama inexorável nas dobras das minhas lembranças...), nos votos secretos feitos a divindade do inevitável, tudo isso e algo mais se faz alegria nos que não se deixam separar por cidades e estações. Tantas preces para que não haja mais paisagens desertas, tentativas de desfazer as pegadas pra que nunca mais haja estradas que nos separe. É com apego nas lembranças que tenho de ti que te concebo eterno e te entrego para a posterioridade mesmo doendo saber que um dia rasgará tudo que é meu, pois o que me cabe é querer o teu regresso. A minha vida foi recompensada naqueles dias...
Isto é, até a (nossa) próxima manhã...
(img retira do site olhares.com)

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

Da série: As Cartas Que Mandei - II

Em uma cidade há um milhão e meio de pessoas, em outra há outros milhões; e as cidades são tão longe uma da outra que nesta é verão quando naquela é inverno. Em cada uma dessas cidades há uma pessoa; e essas pessoas tão distantes acaso pensareis que podem cultivar um segredo, como plantinha de estufa, um amor a distância?
Andam em ruas diferentes e passam o dia falando línguas diversas; cada uma tem em torno de si uma presença constante e inumerável de olhos, vozes, notícias. Não se telefonam mais; é tão caro e demorado e tão ruim e além disso, que se diriam?
Escrevem-se. Mas uma carta leva dias para chegar; ainda que venha vibrando, cálida, cheia de sentimento, quem sabe se no momento em que é lida já não poderia ter sido escrita? A carta não diz o que a pessoa está sentindo, diz o que sentiu na semana passada... e as semanas passam de maneira assustadora, os domingos se precipitam mal começam as noites de sábado, as segundas retornam com veemência gritando - "outra semana!" e as quartas já têm um gosto de sexta, e o abril de de-já-hoje é mudado em agosto...
Sim, há uma frase na carta cheia de calor, cheia de luz; mas a vida presente é traiçoeira e os astrônomos não dizem que muita vez ficamos como patetas a ver uma estrela jurando pela sua existência - e, no entanto, há séculos ela se apagou na escuridão do caos, sua luz é que custou a fazer a viagem? Direis que não importa a estrela em si mesma, e sim a luz que nos manda; e eu vos direi: amai para entendê-las!
Ao que ama o que lhe importa não é a luz nem o som, é a própria pessoa amada mesma, o seu vero cabelo, e o vero pêlo, o osso de seu joelho, sua terna e úmida massa carnal, o imediato calor; é o de hoje, o agora, o aqui - e isso não há.
Então a outra pessoa vira retratinho no bolso, borboleta perdida no ar, brisa que a resta recebe na esquina, tudo que for eco, sombra, imagem, um pequeno fantasma, e nada mais. E a vida todo dia vai gastando insensivelmente a outra pessoa, hoje lhe tira um modesto fio de cabelo, amanhã apenas passa a unha de leve fazendo um traço branco na sua coxa queimada pelo sol, de súbito a outra pessoa entra em fading um sábado inteiro, está se gastando, perdendo seu poder emissor a distância.
Cuidai amar uma pessoa, e ao fim vosso amor é um maço de cartas e fotografias no fundo de uma gaveta que se abre cada vez menos... Não ameis a distância, não ameis, não ameis!


(Rubem Braga, in: "Não Ameis a Distância")

Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Vai praticar o desapego!!!

Eu sei. Porém finjo que não sei e ele fingi que acredita nisso.
Sei que os olhos dele lacrimejam de alegria quando fica sabendo que a outra perguntou por ele.
E que chora escondido no banheiro. Ele pensa que me engana quando aceito como justificativa para os olhos inchados e vermelhos do choro, que é apenas dor de cabeça.
Sei que é por ela, a vadia, que ele se matriculou na faculdade. Quer ser doutor pra ela ter orgulho. Porque se fosse por mim, ou até por ele mesmo, continuaria sendo o filho da empregada doméstica do doutor.
E essa certeza que ele vai carregar pro resto da vida de que, sem ela, nunca mais será feliz novamente? Mata-me!
Sei que ele fecha os olhos enquanto me possui, só pra ter a ilusão de que a tem nos braços.
Sei que por ela se expõe ao ridículo a ponto de comprar rosas no farol e feito um menino romântico, todo envergonhado e com as faces rubras e pelando, entrega-as na soleira da porta.
Sei que ele escreve cartas para ela. Se não fosse por meu orgulho de esposa corneada, eu daria boas gargalhadas das asneiras que ele escreve, uma vez circulei com caneta vermelha os erros grotescos. Alguns deixei passar, para que ele não se sentisse tão humilhado.
Sei que ele fica mal humorado quando alguém lhe conta que ela tem um novo namorado. Ele diz que é ciúmes do filho que fez nela. Sei que a infeliz pensou que por causa desse bastardinho ele me largaria. E eu sabia que a covardia dele não deixaria. E sei que isso não é mérito meu... Diz que não é bom para o menino ver a mãe toda semana beijando um homem diferente.
- Com qual impressão ele crescerá da mãe? - resmunga pela casa.
- A verdadeira. De que a mãe dele é uma vagabunda! De que ele é apenas o primeiro bastardinho de uma penca – respondo.
E apanho. Ah, como dói apanhar com o olhar chicote dele! Se me esbofeteasse a cara, de mão cheia, não doeria tanto quanto... E a ferida que o olhar dele abre em mim, dói ainda mais quando me lembro que ela, a vagabunda, nunca receberá um olhar daquele.
Ele pensa que eu não percebo que uma vez por mês, no dia do pagamento da pensão alimentícia, passa atrás das orelhas aquele perfume importado na esperança quase juvenil, de que ela o cheire no cangote. Sei!
E tudo suporto calada, ou quase calada. Ruminando minha dor. Sem ter com quem dividi-la. Porque que o meu amor, por ele, me fez solitária, abandonada. É disso que sei e que ele e ela nunca saberão.

Quarta-feira, 16 de Abril de 2008

Exausto
(Adélia Prado)

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
(in "Bagagem" São Paulo: Ed.Siciliano, 1993)

Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Alado, você; já não mais o meu coração, que agora pousa acelerado em tuas mãos. Das promessas de vôo livre em teu peito é que desenho os sonhos de ter-te unido a mim o tempo inteiro. Eu, desnuda de mistérios e você, revestido de luz.
Vem, que te ensino a medida exata da vastidão de luxúria. Não há salvação para nós.
No fogo dos teus dedos, onde me derramo dádiva, o jeito como forja meu corpo, teu sagrado desejo: a gula em tuas mãos, meus contornos em teu coração.
Na liturgia dos teus beijos, todo o território da minha alma cedido.
Nos teus lábios, sou o cântigo do milagre.
Nos lábios do meu sexo, a oferenda: vem, sê Homem, (i)mor(t)al.
O pecado da carne vertendo por entre minhas pernas e você, no meio delas, teu dorso deitado sobre meu corpo, vem, que eu quero mais do que teu corpo pode me dar, quero-te germinando a semente do amor, meu melhor gozo.
E o céu, totalmente desnecessário para as nossas almas...
(fotografia: SS - Tuta)

Quarta-feira, 26 de Março de 2008


(Ah, se você quiser mesmo ler, vai ter que clicar na img...)
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Convite
Agora que as coletâneas (estas aí na lateral esquerda) já estão prontas e chegando às minhas mãos, eu e a Loba (minha parceira de quase-tudo) estamos iniciando a organização de um novo livro. Desta vez, será uma Coletânea de contos eróticos - nossa especialidade! As informações estão AQUI. Quem quiser participar, é só clicar e ler o regulamento.